Sempre ouvia histórias do Monte Roraima e sempre tive vontade de conhecê-lo, apesar de ser barato o trekking lá, a passagem aérea para Boa Vista era muito cara, até que um dia surgiu uma promoção e 2 meses depois eu estava a caminho da montanha.

A História do Monte Roraima

O Monte Roraima é uma das montanhas mais antigas do planeta, tem cerca de 2 bilhões de anos e fica localizado na fronteira do Brasil, Venezuela e Guiana. O lugar é único no mundo e atrai montanhistas de todos os cantos do planeta. Naquela região as montanhas não possuem cume, como é o caso do Roraima, que tem uma grande planície irregular no seu topo.

A montanha é extremamente grande, gigante, 10% fica localizado na Guiana, 5% no Brasil e 85% na Venezuela, onde também se encontra a única rampa de acesso a pé ao topo. Ir ao Roraima é como entrar em uma nova dimensão, uma dimensão pré-histórica, a sensação é que um dinossauro vai pular em cima de você a qualquer momento, não é atoa que o lugar foi inspiração no livro “The Lost World” de Arthur Conan Doyle’s, que é como se fosse um Jurassic Park.

A Lenda do Monte Roraima

Segundo uma lenda local havia no lugar uma bananeira, uma árvore que não era comum naquela região, a bananeira era bem bonita e dava bons frutos, foi considerado pelos indígenas como a árvore da vida e que não podia ser cortada nunca. Em certo dia a árvore foi cortada e a natureza se rebelou, toda a vida do lugar morreu e das entranhas da terra surgiu o Monte Roraima, elevando tudo a mais de 2800 metros de altitude.

Já segundo a ciência a montanha surgiu a bilhões de anos atrás devido a movimentação das placas tectônicas.

Como chegar a Santa Elena de Uairén?

Como a única rampa de acesso a montanha está na Venezuela é preciso ir pra lá, em especifico a cidade de Santa Elena de Uairén. A maneira mais fácil é ir para Boa Vista, capital da Roraima. Em Boa Vista você pode pegar um dos Rádios Táxis que levam até Pacaraima, cidade na fronteira com a Venezuela. Esse táxi você pode pegar no Terminal de Integração de Caimbé, eles são táxi lotação e a passagem sai em torno de R$40,00 por pessoa.

Ao chegar a Pacaraima o táxi vai parar em frente a fronteira brasileira, vale lembrar que brasileiros precisam passar pela Polícia Federal para dar saída do Brasil, isso mesmo. Feito isso você pode ir caminhando até o SENIT (Fronteira Venezuelana) para entrar na Venezuela, nesse caminho existem vários cambistas e você pode trocar seus Reais por Bolivares ali mesmo. Após dar entrada no país você pode pegar um táxi para a cidade de Santa Elena de Uairén, porta de entrada para a montanha.

Como subir o Monte Roraima?

É proibido subir o Monte Roraima sozinho, além também de ser perigoso, portanto é necessário contratar uma agência de turismo que te leve até lá. Existem agências brasileiras e venezuelanas, nem preciso dizer qual a mais barata né? A brasileira além de ser absurdamente cara, oferece os mesmo serviços que as venezuelanas.

Eu fui com a Backpacker Tours, que funciona como pousada e agência de turismo, lá eu paguei um valor de R$12,00 na hospedagem e R$660,00 pelo trekking de 6 dias com alimentação, barraca e translado inclusos, não tive do que reclamar dessa agência, super indico. Fechei com eles por e-mail, depositando 50% do valor na conta deles e os outros 50% pagando quando cheguei lá.

Caso você não queira pagar agência, pode contratar guias particulares, geralmente são indígenas da aldeia de Paraitepui, nesse caso você deve levar e preparar sua comida. Vale ressaltar que lá em Santa Elena a única agência que faz esse passeio é a Backpacker, você pode até fechar em outra, mas no dia da saída vão te mandar pra lá.

O que levar para o Monte Roraima?

Equipamentos
Para o Monte Roraima é interessante levar uma Mochila Cargueira, Botas de trekking Impermeáveis, bastões de caminhada, saco de dormir e isolante térmico, óculos escuros e lanterna. Esses itens a meu ver são indispensáveis. Caso você não tenha ou não queira comprar um Saco de Dormir e Isolante Térmico, você pode alugar na agência de turismo. Barracas já estão inclusas no pacote.

Roupas
Sobre roupas vai muito de cada um, há quem goste de comprar todas aquelas roupas especificas como Dry-fit, Corta Vento, Fleece, Anorak e tal, na maioria das vezes essas roupas juntas vão sair mais caro do que sua viagem inteira, caso queira levá-las é bom ir comprando com antecedência.

Eu particularmente não acho essencial o uso disso tudo, ainda mais para o Monte Roraima. Sobrevivi sem perrengue com roupas comuns. Levei bermudas, camisetas esportivas de malha leve, boné, chapéu tipo sombreiro, toalha de banho super absorvente, muitas meias, cuecas, sunga, luvas, toca, calça moletom para dormir, um casaco de frio grosso e tudo comprado em lojas de departamento. Não passei frio, não morri.

Saúde e Segurança
Para não passar grandes perrengues é interessante levar Protetor Solar (sugiro FPS 90), Creme de Pele, Protetor Labial, Repelente (um bom, pois os mosquitos lá são carnívoros), Papel Higiênico, Analgésicos, Relaxantes Musculares, BAND AID, Gaze e Esparadrapo.

Ok, você levará alguns remédios para possíveis imprevistos, mas e se a coisa piorar? Se você cair e quebrar a perna, como faz? Bom nesse caso um helicóptero de resgate virá socorrê-lo, só que para isso você terá que pagar uma taxa de mais de USD 1.000,00, para que isso não ocorra é bom você levar também um Seguro Viagem com cobertura para atividades outdoor.

Demais coisas pra levar
Eu em particular gosto de levar também coisas pra comer, então levei algumas Barras de Cereais, Água, Isotônicos, Salgadinhos e Goma de Mascar. Gosta de tirar fotos? Então leve também baterias ou pilhas reservas, lá não tem como carregar nada, então é bom se garantir.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 01

No 1° dia o ponto de encontro era na agência onde fechei o trekking, todos se reuniram lá onde o guia nos deu uma explicação básica e em seguida fomos em um Jeep 4×4 até a aldeia de Paraitepui que fica dentro do Parque Nacional Canaima. Nessa aldeia vivem alguns indígenas da área e que também trabalham com o turismo do Roraima. Ao chegarmos à aldeia nós fizemos um breve lanche e em seguida levamos nossas mochilas para um pente fino, os supervisores do parque revistam tudo mesmo pra saber o que você está levando, depois da revista estamos livres para começar a trilha.

O primeiro dia é bem razoável, no começo da trilha tem alguns morros inclinados, mas depois a trilha vai ficando mais estável. Ao todo de Paraitepui até o Acampamento Río Ték, onde passamos a primeira noite, são 12 km e o tempo em que isso é percorrido vai de cada pessoa. A vegetação se assemelha muito ao nosso cerrado, mas lá é chamado de Gran Sabana. Pelo fato da vegetação ser rasteira e a localização do lugar muito próximo a Linha do Equador, o sol domina naquele lugar, muito quente, o que pode tornar esse trecho “fácil” um pouco desgastante. Depois de algumas horas de caminhada nós chegamos ao Río Ték, onde nossas barracas já estavam armadas, ali tomamos um banho no rio gelado mesmo, jantamos e após algumas conversas jogadas fora nós fomos dormir.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 02

No segundo dia acordamos bem cedinho com o céu ainda nublado, a noite havia sido bem fria, mas meu saco de dormir aguentou bem. Após o café, arrumei a minha mochila e dei início ao segundo dia de caminhada. Nesse dia foram 10 km até o Acampamento Base do Monte Roraima. Esse percurso é um pouco mais desgastante, com muitas subidas de pedras e dois rios para atravessar, o Río Ték e o Río Kukenán.

A vegetação ainda é baixa, poucos lugares com sombra o que torna o protetor solar e um chapéu sombreiro essenciais. Em 4 ou 5 horas, após diversas paradas cheguei ao Acampamento Base do Monte Roraima, onde o almoço já pronto. Lá tem diversas tendas improvisadas e as barracas já armadas pelos carregadores. Cheguei totalmente exausto, como o sol estava forte não dava pra descansar dentro da barraca, dormi um pouco de baixo de uma das tendas e quando acordei tentei tomar um banho. Nesse acampamento passam dois pequenos riachos, só que a água é muito gelada mesmo, do tipo que quando você coloca o pé a sua circulação para instantaneamente, ali foi um banho de gato mesmo. Com o resto do dia livre, aproveitei para tirar algumas fotos, cuidar das bolhas dos pés e tirar o máximo de peso da mochila, pois o próximo dia seria complicado. No final do dia fomos presenteados com um pôr do sol lindo.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 03

O dia amanheceu frio como em todos os outros. Tomamos um café bem gostoso, o cardápio era Arepas Venezuelanas. Após comer e com as mochilas já arrumadas começamos uma das partes mais difíceis, a subida até a rampa de acesso da montanha. Esse trecho é bem chatinho. A vegetação muda completamente, de rasteira para floresta fechada, conforme vamos subindo os caminhos de barro, argila e pedras a sensação de que um dinossauro vai sair e te atacar é bem grande, pois o lugar parece jurássico, perdido no tempo e não explorado por ninguém, lembrei varias vezes do filme Jurassic Park.

Esse trecho tem pouco mais de 2km e que são percorridos em média em 4 horas, isso tudo devido a subida íngreme, que apesar de ser difícil nos presenteia com belas visões panorâmicas de toda Gran Sabana a todo momento. Conforme andamos passamos por pequenas cachoeiras e bem ao lado do paredão de pedra da montanha. Quando a gente pensa que não pode piorar, a coisa piora! Existe um trecho nesse caminho chamado de Paso de las lágrimas, nem precisa de tradução, nesse caminho você passa por debaixo de uma cachoeira (no período chuvoso) e após passar se depara com uma subida do cão, ela é totalmente inclinada, íngreme, com pedras soltas e cheias de lodo, se não tiver cuidado ali você pode despencar de uma altura considerável, ali deveria ser obrigatório a fixação de cordas para as pessoas subirem.

Depois desse trecho são mais 40 minutos de subida em meio a pedras gigantes até o topo. A chegada lá foi encoberta de nuvens. Depois que chegamos ainda temos que caminhar mais 15 minutos no topo para podermos chegar ao nosso acampamento, que ficava debaixo de uma pedra e já estava tudo pronto pelos nossos guias. O almoço foi bem farto, e depois de descansar um pouco voltamos a caminhar, dessa vez ao ponto mais alto da montanha, aos 2.810 metros. A caminhadinha é bem leve, com algumas subidas, mas a visão lá de cima é recompensadora. Dá pra ver boa parte da planície do topo do Roraima, além do Monte Kukenán e quando as nuvens permitiam, a visão da Gran Sabana lá embaixo. Após passar um tempo ali nós retornamos ao Acampamento para jantar e descansar para o próximo dia.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 04

Acordei mais revigorado nesse dia. Tomamos um café reforçado e logo cedinho fomos explorar o topo do Roraima. Nesse dia o clima tava bem instável, hora garoava, hora ventava, hora fazia sol. A primeira parada foi no Vale dos Cristais, um lugar onde tem muitos cristais, é tanto que você chega a caminhar em uma trilha cheia deles no chão, além das grandes pedras com cristais embutidos. Vale ressaltar que esses cristais são sagrados pra montanha e que levá-los dali é proibido. Caminhamos mais, passamos por grande lagos e pequenas cachoeiras. A vegetação de lá é composta por Bromélias e Plantas Carnívoras e de animais é possível encontrar pequenos pássaros e um pequeno sapinho preto e “indefeso”, você pode pegá-lo na mão tranquilamente, me falaram que ele não é venenoso, mas eu preferi lavar minhas mãos após pegá-lo, vai saber né!

Continuando a caminhado nós chegamos até La Ventana ou A Janela, ali tem uma das mais belas visões que o Monte Roraima pode proporcionar, infelizmente eu não tive essa visão, o tempo fechou muito e não podíamos ficar ali esperando a boa vontade de São Pedro. A próxima parada eram as Jacuzzis, piscinas naturais com água cristalina, mas que ficavam coloridas devido às pedras do fundo. A caminhada até lá foi debaixo de chuva e vento, mas assim que chegamos o sol apareceu de tal forma que fui obrigado a cair dentro da Jacuzzi para tomar um banho atrasado. A água estava ultra gelada e entrar devagarzinho não dava, tive que pular mesmo e depois que fui todos os outros gringos caíram também. De lá caminhamos entre pedras com formações que lembravam tigres, pássaros, elefantes, e até o rosto de Fidel Castro. Retornamos ao acampamento para almoçar e depois seguir caminhando, dessa vez até uma caverna. A caminhada até lá foi mais tranquila, mas pra entrar na caverna é meio complicado, tem que passar por algumas fendas de pedras, tanto na entrada como no interior dela, porém quando chegamos no último salão nos deparamos com um lago de águas cristalinas. De lá voltamos ao acampamento, já era o final da tarde e tiramos pra descansar. No dia seguinte era dia de voltar.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 05

Dia de descer a montanha, acordamos cedinho e o tempo estava bem fechado e carregado. Tomamos café, arrumamos nossas coisas e iniciamos a descida. Ventava muito e começou a chover. A descida foi bem tensa, as pedras estavam todas escorregadias e o Paso de las Lágrimas estava mais perigoso ainda. Quando subi não tinha quase nada de água caindo, mas na descida, devido à chuva da noite anterior a cachoeira havia dobrado de tamanho e força, a enxurrada nas pedras era bem grande e a descida naquela parte foi mais tensa.

Subir a montanha é só metade do caminho, afinal tem a volta e é na volta que a maioria dos acidentes acontece, o músculo está mais fraco, a pessoa não está muito atenta e pode acabar vacilando e caindo em algum buraco ou escorregando ladeira de pedras abaixo. A atenção não ficou só nessa parte, mas como em toda descida até o Acampamento Base, pois estava praticamente tudo alagado e escorregadio por causa do barro.

Cheguei ao Acampamento Base debaixo de chuva e todo molhado. Ali paramos apenas para almoçar e seguir caminhada, descemos do topo do Roraima direto para o primeiro acampamento, o Acampamento Río Ték. Nesse trecho a minha perna deu um jeito que doía toda vez que eu forçasse para apoiar, se não fosse o bastão de caminhada para ajudar eu não teria conseguido. Com o passar das horas a chuva passou e o sol saiu, continuei caminhando até chegar ao Río Kukenán, um dos que tínhamos que atravessar, o problema é que por causa da chuva ele havia dobrado de tamanho e as corredeiras estavam muito fortes, o jeito foi atravessar uma corda no rio e passar segurando nela.

Dali foi mais 1,5km até o Acampamento Río Ték, onde tomei um banho e fui verificar o prejuízo da chuva; passaporte, dinheiro, botas e metade das minhas coisas molhadas. Deixei tudo em um varal improvisado, mais tarde eu e o pessoal jantamos e fomos dormir.

Trekking ao Monte Roraima – Dia 06

Apesar da madrugada que foi com ventos fortíssimos (minha barraca quase saiu voando), o último dia veio com um belo sol, aproveitei para colocar minhas coisas pra secar. Tomamos um ótimo café e aproveitamos para agradecer ao Alex, nosso guia e toda sua equipe, para isso doamos uma quantia em dinheiro para eles.

Voltei a percorrer os 12km de volta até Paraitepui, tudo isso olhando o Monte Roraima ficando pra trás e não acreditando que estive lá. Chegando a Paraitepui fomos recebidos pelos indígenas com uma comida típica deles, era uma massa parecida com tapioca, só que bem que bem mais grossa junto com um molho que parecia um vinagrete, só que bem apimentado. Na aldeia nós brindamos todos com uma cerveja gelada e fomos de Jeep até San Francisco, um povoado onde almoçamos e onde tinha diversas feiras de artesanato. Após um tempo lá nós voltamos a estrada para chegar a Santa Elena de Uairén.

Subir aquela montanha para mim foi uma experiência única, descobri um lugar novo, único e fiz novas amizades, com gente dos 4 cantos do mundo. Nenhuma viagem é mal aproveitada, até as mais exaustivas e que exigem esforço físico valem a pena e o Roraima é uma delas.

Queria terminar esse post com uma citação que o Henry, um senhor que nos acompanhou na subida da montanha me mandou alguns dias atrás;

“Al querer subir el gran Tepuy Roraima me sentía con ansiedad, al estar en su cima me quede callado, no habían palabras; que bueno fue estar en la cumbre por dos días, aunque me doy cuenta que no conocí “nada”. Al bajar de ella lo hice velozmente, tan rápido sin casi voltear atrás, todo para no darme cuenta que subí o que tal vez ni he bajado…”
German Rojas

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