0
Shares
Pinterest Google+

Portugal é um país é lindo, praias paradisíacas, um clima ótimo, uma culinária de dar água na boca, povo muito solidário e com um custo de vida barato em muitos aspectos. Parece um sonho, mas então o que poderia dar errado?

Antes de tudo quero deixar claro que não estou escrevendo isso para desanimar ninguém, quero muito que venham e cobrem a dívida histórica sejam bem sucedidos, só estou aqui para contar a minha experiência em Portugal, ok?

Ao contrário de muitos que vão para Portugal direto do Brasil, eu fui pra lá depois de 4 longos anos na Irlanda. Tomei essa decisão por vários motivos e 1 deles era o visto irlandês no qual eu não podia prorrogar mais sem estar cursando a faculdade e eu já estava cansado de estudar. Precisava ir para outro lugar, mas não queria voltar pro Brasil, sabem como é a situação lá né!?

Dentro da União Européia a opção mais fácil seria Portugal, onde existe uma possibilidade de adquirir a residência através de um contrato de trabalho e depois de 5 anos a cidadania portuguesa. Na teoria é muito fácil e simples, mas a prática é outra história.

Uma coisa é você mudar para Portugal vindo do Brasil, outra coisa completamente diferente é ir para Portugal depois de 4 anos na Irlanda, um país infinitamente mais rico e avançado que Portugal.

Assim que eu cheguei em Lisboa fiquei deslumbrado com a cidade. Um lugar vivo, umas 20x maior que Dublin, foi amor a primeira vista. Mas quando aquele período de excitação passa e você começa a viver ai sente a diferença. Viver sem comparar o ótimo com o não tão bom assim é quase inevitável.

Viver em Portugal
Vielas de Alfama em Lisboa

Tudo bem burocrático

Prepare-se para filas gigantes, horas, dias e até meses de espera. Sim, uma herança que o Brasil herdou de Portugal foi a burocracia. O brasileiro que chega aqui tem que dar entrada em vários documentos para se legalizar. Não entrarei muito em detalhes, pois seria uma lista de burocracias, mas para se ter uma ideia há sempre uma barreira ou falta de comunicação nos órgãos do governo no que diz respeito a emitir algum documento ou fazer alterações.

Por exemplo, existem documentos como o NIF (Número Físcal, tipo um CPF) que você vai precisar conhecer 1 ou 2 portugueses que possam ir com você até a Receita Federal Portuguesa para assinar e colocar seus nomes como responsáveis por você. Sem o NIF você não consegue fazer absolutamente NADA.

Existem outros como Recibos Verdes (atividade autônoma) que você só poderá emitir depois de 6 meses vivendo em Portugal e ainda sim precisará de fiador. Algumas pessoas dizem que você consegue emitir com menos de 6 meses, mas essa não foi a informação que me passaram na Receita Federal em Lisboa.

Tem também o NISS (Número de Segurança Social) que é uma responsabilidade da empresa que te contrata emitir, caso ela não faça você terá que fazer isso através dos Recibos Verdes, e depois esperar mais ou menos uns 2 meses até que o Número de NISS seja emitido e enviado para você (isso quando enviam).

Há também alguns processos simples como Solicitar Entrada no País caso você venha de algum outro lugar da UE e não tenha recebido o carimbo de entrada em Portugal no seu passaporte. Segundo a lei você tem até 3 dias úteis antes de começar a pagar uma multa (€30,00 por dia irregular) para ir ao SEF (Serviço de Estrangeiro e Fronteiras – vulgo Imigração) pegar o carimbo. Problema é: O SEF só atende com agendamento e só para solicitar o carimbo você vai ter que esperar no mínimo uns 3 ou 4 meses.

Existe também a Manifestação de Interesse na Residência, que é quando você já tem um emprego com contrato e todos os documentos certo e precisa emitir a residência, mas que você precisa agendar e mais uma vez as vagas são apenas para 5 ou mais meses.

Para comprovar um endereço em alguns lugares é uma luta. Uma simples conta no seu nome as vezes não dá, é preciso emitir um ‘Atestado de Morada‘, que seria um comprovante de endereço emitido pela prefeitura do seu bairro no qual é preciso pagar €10,00 (R$40) e nem sempre ele é aceito. Muitos lugares apenas aceitam Contrato de Trabalho ou de Aluguel que é bem difícil de ter.

viver em Portugal
Vista de Lisboa

Supermercado em Portugal é caro sim!

Portugal é um país ‘barato’ comparado ao Brasil, porém eu levei um susto quando fui ao supermercado aqui. Um pacote de queijo da mesma marca e num mesmo supermercado que na Irlanda custava €1,39 em Portugal custa €2,29. Já uma bandeja de cogumelos que na Irlanda custa €0,99 em Portugal custa €2,99.

Em Dublin eu costumava ir ao mercado 1 vez por semana e gastava em torno de €25,00 a em cada, saindo de lá com 2 sacolas abarrotadas de comida. Em 1 mês meu gasto era de €100,00. Em Lisboa €25,00 não encheu 1 sacola e por mês a conta já está passando dos €120,00.

Em contra partida temos restaurantes e bares que são infinitamente mais baratos que na Irlanda. Em Dublin um copo de cerveja que sai por €5,00 custa míseros €1,80 em Lisboa. Já uma refeição num restaurante que em Dublin custaria em torno de €20,00 em Lisboa é possível achar por até €10,00.

Viver em Portugal
À esquerda o valor português e à direita o valor irlandês

Aluguel em Portugal

O aluguel vai variar muito, mas é uma das coisas que Portugal sai na vantagem em relação a Irlanda. Em Dublin por exemplo, os alugueis são caríssimos e dificilmente você achara um quarto de solteiro por menos de €600,00 por mês no centro da cidade. Já em Lisboa um quarto de solteiro grande e no centro você pode encontrar por €300,00 por mês.

Mas conseguir o nome no contrato para poder provar residência já uma outra saga. Não que na Irlanda seja diferente, mas ao menos em Dublin eu conseguia ter meu nome no contrato e até processei meu Landlord (Senhorio) por cobranças indevidas e ganhei na justiça.

Trabalho e Salário em Portugal

Aqui chegamos no ponto crucial. Para se legalizar no país e ter sua residência é preciso do Número de Segurança Social de um Contrato de Trabalho, documentos emitidos pela empresa que te contrata.

Mesmo sendo permitido as empresas geralmente não contratam pessoas que estejam com visto de turista ou não tenham residência. Quando aceitam elas não te dão o contrato de trabalho e aproveitam para te explorar, já que você não tem direitos algum. Dependendo do lugar você irá trabalhar mais, receber menos e sem os documentos necessários, ou seja, de nada adianta.

O pessoa que não receber esses documentos da empresa precisa ir nas Finanças (Receita Federal) e abrir uma atividade autônoma chamada de Recibo Verde, para que ao menos o Número de Segurança Social seja emitido e que você possa começar a pagar suas taxas e assim dar entrada na residência. Processo que levará em torno de 2 a 4 meses. É um corre louco, não é impossível, só é bem difícil!

Já o salário é algo que eu me pergunto como alguém pode viver assim? Na Irlanda o meu salário mensal era em torno de €1450 por mês para trabalhar apenas de 3 a 4 dias por semana. O salário minimo bruto em Portugal por mês é em torno de €600,00 trabalhando 8 horas por dia de segunda a sexta no mínimo!!! Eu fiz entrevistas em lugares que queriam me pagar €400,00 por mês!

Em um emprego que consegui (mas que não davam nenhum dos documentos necessários), o salário era de €600,00 bruto. Resolvi então fazer as contas das minhas despesas para ver se dava. (Detalhe, essa empresa nem quis me pagar os dias que trabalhei quando disse que iria sair)

Salário Mensal de €600
Gasto MensalValor
Aluguel€300,00
Contas Água, Luz e Internet€30,00
Internet Celular€23,00
Transporte€30,00
Alimentação€120,00
Total€503,00
Sobrou €97,00

No fim sobrava €97,00 pra passar o mês. Me desculpe, mas não tem como passar o mês com €97,00, e olha que nem coloquei os descontos, se tivesse colocado o que sobraria seria praticamente nada.

Para o MIM, Leonardo, quem escreve neste blog, Portugal é um país maravilhoso e lindo se você é um turista que quer passar algumas semanas lá ou se já tem cidadania ou residência, mas para morar como um imigrante ilegal tentando se regularizar a realidade é completamente diferente.

Viver em Portugal
Região de Martim Moniz em Lisboa

Quer vir para Portugal?

Como eu disse lá no começo do texto eu não estou aqui para desanimar ninguém de vir. Quando eu fui pra Irlanda eu conheci pessoas que odiaram e foram embora em menos de 2 meses, eu fiquei 4 anos. Do mesmo jeito que aqui em Lisboa eu conheci brasileiros que se deram bem e seguem aqui por anos e eu não aguentei 2 meses.

Onde eu errei?

Acredito que meu erro esteve no planejamento e no excesso de confiança. Eu pensava que por já ter tido uma experiência relevante no exterior e falar 3 idiomas me ajudariam e que eu conseguiria resolver tudo em um piscar de olhos. Por isso não me preocupei em segurar a grana no começo e só quando foi quase acabando que eu me toquei na burrada que tinha feito.

A minha dica para quem vem é: Venha preparado, traga uma boa reserva de dinheiro e força de vontade para superar todos os obstáculos.

Eu não desisti de Portugal ainda, só vim em um momento em que eu não devia ter vindo.

Sentirei saudades de Lisboa como cidade, mas não como um lugar para viver neste momento.

Comente pelo Facebook

comentários

Post anterior

Visitando as Pirâmides de Gizé no Cairo

Próximo post

O que comi por ai: Koshari